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      Almanaque vem do árabe "al-manakh", que significa “o lugar onde o camelo se ajoelha ou onde se apeia do camelo ou do cavalo para conversar e trocar informações”. Esta página é um espaço para assuntos vários: comunidade,  atualidades,  resumos sobre ciências, meio ambiente, história, música, literatura,  artes plásticas e gráficas.

O ESCRITOR, COMPOSITOR, FOLCLORISTA E ETNÓLOGO  CORNÉLIO PIRES -  1884 / 1958

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    A importância da  literatura caipira de Cornélio Pires na cultura brasileira é imensa. Suas obras têm sido recuperadas por estudiosos e editoras brasileiras. São parte de  um tesouro linguístico e folclórico de uma cultura valorizada entre os paulistas, mineiros e outros brasileiros. Jornais, revistas,  livros, teses acadêmicas abrem espaços para o estilo de vida do caipira, que continua vivo em muitas das pequenas cidades interioranas, nos subúrbios de cidades médias e sempre são lembrados nas festas juninas

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Fulvio Penacchi (1905-1992)
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     Cornélio Pires nasceu em Tietê no dia 13 de julho de 1884 e aos 17 anos teve o primeiro contato com a escrita ao ser aprendiz na tipografia do jornal "O Tietê".

     Em  1901, foi para  São Paulo ambicionando cursar a Faculdade de Farmácia e prestou o concurso de admissão mas não foi bem sucedido.  Conseguiu então empregar-se na redação do jornal O Comércio de São Paulo. Depois trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, onde desempenhou a função de revisor.  A partir de 1914, passou a trabalhar no periódico O Pirralho, fundado por Oswald de Andrade.

     A pressão da família era para que procurasse mais cultura e se tornasse doutor, mas ele percebeu  que queria fazer o caminho contrário  -  queria mesmo era levar a cultura caipira  para a capital, com a preocupação de ser bem fiel a essa cultura para se tivesse um registro genuíno. Tornou-se  jornalista, escritor, folclorista, empresário, ativista cultural e um importante etnógrafo da cultura caipira, o que lhe garantiu o apelido de Bandeirante do folclore paulista.

     Apesar  de se adaptar rápido à vida urbana da São Paulo no início do século XX, ele nunca deixou as raízes do interior para trás. Iniciou a sua carreira viajando pelas cidades do interior do estado de São Paulo e outros, como humorista caipira.

     Em 1910, Cornélio Pires apresentou no Colégio Mackenzie, hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, um espetáculo que reuniu catireiros, cururueiros e duplas de cantadores do interior. O Colégio Mackenzie foi fundado e sempre mantido pela Igreja Presbiteriana, à qual Cornélio Pires pertencia.

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      Depois de fazer sucesso com textos em jornais da capital, começou a escrever livros, e a criar roteiros de peças teatrais. O mergulho no universo dos palcos fez Cornélio se envolver com uma característica que foi uma de suas grandes marcas: o humor. Ele se apresentava em vários lugares de São Paulo contando piadas . Mais tarde resolveu adaptar as peças de teatro bem-humoradas que escrevia, as levou para o cinema e guarda no currículo vários filmes assinados por ele.

   Cornélio Pires foi um mestre em recolher, em prosa e verso e também através da música a simplicidade e a  astúcia das conversas caipiras, as tais patacoadas, misto de anedotas, tiradas maliciosas,  contos e “causos”.   Suas poesias são tidas, hoje, como documentos imprescindíveis para se conhecer essa “alma caipira”. Aliás, o primeiro livro de Cornélio Pires, publicado em 1909, intitulou-se “Musa Caipira”, dedicado a outro mestre do folclore brasileiro, Amadeu Amaral. Depois vieram muitos outros. Abaixo um soneto clássico da literatura regionalista, do livro “Musa Caipira"

IDEAL CABOCLO

Cornélio Pires


Ai, seu moço, eu só quiria
Pra minha filicidade,
Um bão fandango por dia,
E um pala de qualidade
Pórva, espingarda e cutia,
Um facão fala-verdade
E uma viola de harmonia
Pra chorá minha sódade
Um rancho na bêra d´água,
Vará de anzó, pôca mágoa,
Pinga boa e bão café…
Fumo forte de sobejo…
Pra compretá meu desejo,
Cavalo bão – e muié!

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Tela de Oscar Pereira da Silva

  Apaixonado pela efervescência da cultura caipira que se formava no interior, procurou contato com violeiros de Piracicaba , entre eles Mariano e Caçula, para começar a musicar os "causos" que ouvia por onde passava. É aí que ele compõe, "Jorginho do Sertão", a história de um caboclo que vai carpir uma roça de café e, ao invés de receber o pagamento, recebe a proposta do patrão para se casar com uma das três filhas dele e acaba rejeitando os três casamentos.             

  Depois de fundar a "Turma Caipira do Cornélio Pires", (foto) enxergou que aquela manifestação popular que surgia nas roças do Brasil tinha um potencial para ganhar o país e se tornar profissional. Em 1929, bateu na porta da gravadora Columbia e convenceu o proprietário a registrar a primeira música sertaneja do Brasil: "Jorginho do Sertão", a canção composta por ele com fragmentos de causos do folclore, na voz da dupla Mariano e Caçula. Com isso, criou e influenciou por décadas o gênero musical mais ouvido do país.  Com a música em mãos, ele pagou do próprio bolso o disco para que a Columbia pudesse gravar a canção

    O Brasil nessa época vivia um sistema artístico de internacionalização, de Belle Époque francesa, eram os gostos literários europeus: a literatura rebuscada, a música rebuscada e o rádio começa a tomar uma determinada proporção na vida social brasileira. Cornélio percebia que as rádios não tocavam música brasileira, sentia a invasão do tango argentino nas rádios e teve a ideia de pegar esse formato do show que ele fazia, as apresentações, com músicas, piadas, com causos, com imitações, e levar para o disco"

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   O músico e presidente do Instituto Cultural Cornélio Pires, Pedro Massa afirma: "Ele era um artista de alma inquieta, que se diria hoje um multimídia, e, no início do século XX, acabou firmando várias bandeiras de pioneirismo em cada uma dessas áreas, então ele tem pioneirismo na literatura pois foi o primeiro escritor brasileiro a registrar na literatura a poesia dialetal, foi o primeiro no cinema a fazer um filme independente falado, dentro do stand-up foi ele que criou essa história de contar piada em palco e ganhar dinheiro com isso",

       Cornélio Pires foi autor de mais de vinte livros, nos quais procurou registrar o vocabulário, as músicas, os termos e expressões usadas pelos caipiras. No livro "Conversas ao Pé do Fogo", Cornélio Pires faz uma descrição detalhada dos diversos tipos de caipiras e, ainda no mesmo livro, ele publica o seu "Dicionário do Caipira". Na obra "Sambas e Cateretês" recolhe inúmeras letras de composições populares, muitas das quais hoje teriam caído no esquecimento se não tivessem sido registradas nesse livro.       A importância de sua pesquisa começa a ser reconhecida nos meios acadêmicos no uso e nas citações que de sua obra faz. 

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SODADE

Cornélio Pires

 

Sodade é uma dor de dá

Mas num é dor que doe

É vontade de alembrá

É vontade de esquecê

É dor de dente, machuca

Mas onde doe num se vê

E a gente pega e cutuca

Pra num deixá de doê

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Tela de Maria Pardos

SITIO DO CABOCLO

Cornélio Pires

 

Pouco distante da aguada,

no chapadão que além vira,

uma casinha barreada,

de uma, família caipira.

 

A cerca, de pau-a-pique,

logo ao chegar se depara;

ao quadro dá um quê de chic

uma porteira de vara.

 

No oitão da casa um poleiro,

e um leitãosinho a fuçar...

e num canto do terreiro,

uma pedra de afiar.

Do telhado sob as beiras,

o córrego de enxurradas,

formado pelas goteiras,

no, tempo das chuvaradas,

 

Num cocho perto da porta,

come milho um punga baio,

e um homem taquaras corta

para fazer um balaio.

 

E um caboclinho indolente,

que baixinho cantarola,

recostado no batente

vai penteando a viola,.

 

 Abobreiras no cercado...

vagarosa uma caipira,

tendo a peneira de um lado,

vai colhendo cambuquira.

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   No final de sua vida, Cornélio Pires tornou-se homem religioso, espírita convicto, dedicando-se à caridade. Em sua cidade natal, Tietê, onde quis morrer, manteve um orfanato infantil. 

  Sobre sua fé religiosa, deixou a seguinte quadrinha:


   “Mas caridade sem ação
    é qual a fumaça no forno,
    que espalha mais fome em torno,
    em vez de espalhar pão.”

Tela de Almeida Júnior
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